O último sobrevivente de Harlem
A morte de Sonny Rollins, Nubya Garcia em São Paulo e a programação de Junho da Jazz Mansion.
Abertura por Dennis Vianêz

Nesta semana o jazz envelheceu de um jeito que não tem volta. Sonny Rollins morreu aos 95 anos, na casa dele em Woodstock, no interior de Nova York.
Se você conhece Sonny Rollins, já deve ter sentido a importância dessa partida.
Se não conhece, preciso contar aqui, porque essa morte é diferente de todas as outras.
Existem tantas histórias pra contar sobre ele, desde como influenciou toda a geração do jazz pós-bebop até quando sumiu de cena no auge da fama e ia sozinho, de madrugada, ensaiar saxofone por horas na passarela da Williamsburg Bridge.
Mas quero ressaltar especialmente a participação dele na foto "A Great Day in Harlem". Em agosto de 1958, um fotógrafo chamado Art Kane teve uma grande ideia: juntar numa única manhã, numa única calçada do Harlem, o maior número possível de músicos de jazz vivos. Apareceram 57.

Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Count Basie, Coleman Hawkins, Lester Young, Mary Lou Williams. Praticamente toda a primeira metade da história do jazz em pé, lado a lado, espremida na frente de um prédio na Rua 126. Miles Davis e John Coltrane estavam fora da cidade, na estrada, tocando juntos na mesma banda. Louis Armstrong e Duke Ellington também estavam fora em turnê. Já imaginou essa foto com mais esses 4?
A foto ficou conhecida como "A Great Day in Harlem", um grande dia em Harlem, e até hoje é uma das imagens mais famosas que a música já produziu.
O Sonny era o caçula daquela manhã. Tinha 27 anos e ficou na primeira fila, cercado dos próprios ídolos. O Coleman Hawkins e o Lester Young, os dois saxofonistas que ele copiava em casa quando era moleque, estavam ali do lado dele. Imagina o tamanho do dia que foi pra ele.
O mais novo da foto virou o último vivo. O garoto que olhava pra todo mundo de baixo pra cima sobreviveu a cada um deles, por décadas. Quando ele partiu, fechou a última janela daquela manhã. Não sobrou mais ninguém que possa dizer "eu estava lá". "A Great Day in Harlem" deixou de ser memória de alguém e virou só história, dessas que a gente conta mas ninguém mais viveu.
Dennis Vianêz • Idealizador Jazz Mansion
Nessa quinta 28.05

O Caju Jazz Nights homenageia "Undercurrent", de 1962, um dos discos mais bonitos e improváveis que o jazz já fez. É só piano e guitarra, sem baixo, sem bateria. Dois instrumentos conversando baixinho por meia hora, cada nota no lugar certo.
Ele abre com "My Funny Valentine", que todo mundo toca como balada triste, e ali vem acelerada e alegre. Um susto gostoso.
Bill Evans gravou esse disco logo depois de perder o baixista do trio dele, morto num acidente aos 25 anos. Por baixo da calmaria, tem luto. A capa é uma mulher boiando embaixo d'água, de olhos fechados. Superfície tranquila, correnteza por baixo. Daí o nome.
Quem assume o disco no palco são a Liliana e o Igor Bollos. A Liliana toca piano, o Igor toca guitarra, e os dois são mãe e filho. Uma dupla de família homenageando a dupla de piano e guitarra mais famosa do jazz.
📍 Quinta, 28/05. Casa 19h30, show 20h. Bar Caju, JW Marriott, Chácara Santo Antônio. Entrada gratuita, 50 lugares VIP.
Também vale ouvir

Sonny Rollins, "St. Thomas" — Saxophone Colossus (1956):
A despedida mais feliz que dá pra fazer do Sonny. É um calipso que a mãe dele cantava em casa, herança das Ilhas Virgens, virado em pura alegria de tocar. Se você nunca ouviu jazz na vida, comece por aqui. É impossível ouvir e ficar triste.
Miles Davis, "Airegin" — Cookin' (1957):
"Airegin" é uma música que o próprio Sonny escreveu, "Nigéria" de trás pra frente, e foi o Miles Davis quem deixou famosa. Essa gravação é de 1956, com o quinteto que tinha o Coltrane junto, a banda mais afiada que o Miles já teve. E uma curiosidade boa demais: a primeiríssima gravação de "Airegin", em 1954, tinha o próprio Sonny tocando ao lado do Miles. Os dois lado a lado, na origem da música.
O que fazer em SP

Tom Zé, sábado (30/05), na Casa de Francisca
Aos 89 anos, uma lenda viva da Tropicália sobe num dos palcos mais aconchegantes da cidade. Ver o Tom Zé de pertinho é dessas coisas que a gente conta pros netos. Casa pequena, então corre atrás do ingresso.
Nubya Garcia, quarta que vem (03/06), na Casa Natura Musical
Já emenda a semana seguinte, mas vale o aviso desde já: a Nubya é uma das maiores saxofonistas da nova cena de jazz de Londres, aquele jazz que conversa com afrobeat, dub e hip hop. Se você quer ouvir pra onde o jazz está indo agora, é com ela. Os ingressos voam.
Damián Ortega no MASP, em cartaz
O mexicano Damián Ortega ocupa o museu com a mostra "Matéria e Energia", que fica em cartaz até setembro. Bom programa pra um fim de tarde de domingo na Paulista.
Agenda Jazz Mansion

Toda Terça Um Jazz
Bourbon Street · Moema · 19h30
Ingresso R$ 50 ou gratuito para membros do club
09/06 • Love Songs - Pri Vianna: A cantora apresenta um espetáculo especial dedicado às grandes love songs que marcaram gerações. Com interpretações sofisticadas e carregadas de emoção, o repertório percorre clássicos do jazz, soul e da música internacional romântica, criando uma atmosfera intimista e envolvente.
16/06 • Sobre Amores - Thiago Jamelão: Thiago é daqueles nomes que você talvez já tenha ouvido sem saber. Goiano de origem, passou pela cena de Brasília e hoje vive em São Paulo. Foi peça importante no AmarElo do Emicida, o disco que ganhou o Grammy Latino, onde cuidou da preparação vocal e da coprodução, e segue na estrada com o Emicida como guitarrista e backing vocal. Quem chegou no jazz pelo rap vai se sentir em casa.
23/06 • Clássicos do Blues - Blues In Vain: A noite dos puristas e dos curiosos. A Blues in Vain nasceu em 2017 com uma missão clara: voltar às raízes do blues, do Delta do Mississippi pra cá, do figurino ao som. Tocam com violão ressonador, gaita, washboard e percussão, os instrumentos que contam a história do gênero, misturados com guitarra, teclado, baixo e bateria. Blues com irreverência e muito improviso, do jeito solto que ele nasceu pra ser.
30/06 • Travessia - Luci Saluzzi: Você talvez conheça a voz dela sem saber o rosto. Luci é atriz, cantora e dubladora: foi a Asha de "Wish", a Sarabi de "Mufasa" e a Riri Williams de "Pantera Negra: Wakanda pra Sempre". Nos palcos, fez teatro musical de peso, do "Dom Casmurro", onde viveu a Capitu, ao "Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte". Agora ela está num momento novo, dando voz às próprias canções, sobre afeto, memória e pertencimento. Intensa, sensível, de pele. Uma boa descoberta pra fechar o mês.
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