O melhor lineup de festival de jazz do mundo
O Newport Jazz Festival responde da melhor maneira uma crítica que a cena toda estava fazendo, recomendações de som diretamente do Club, Erykah Badu fazendo experiência inédita e a programação de maio na Jazz Mansion.
Abertura por Dennis Vianêz

Há uma crítica comum na cena: festivais de jazz que não tocam jazz.
O Festival de Montreux, um dos mais famosos do mundo (e um dos meus favoritos), já teve o Deep Purple como headliner oito vezes e já recebeu até o É o Tchan. Em 2025, o cartaz do palco principal incluiu J Balvin, Neil Young, Diana Ross e RÜFÜS DU SOL. Tem até uma página no Instagram chamada Jazz Memes que vive fazendo piada sobre isso.
Eu mesmo já ouvi muita crítica sobre a curadoria da Jazz Mansion dar espaço pra artistas do rap e que isso não é jazz, mas isso é papo pra outra conversa.
O que o Newport Jazz Festival fez essa semana foi diferente.
O festival mais antigo do mundo acaba de lançar o lineup de 2026. O Newport Jazz Festival se define como "o avô de todos os festivais americanos de música", desde 1954. Não é retórica. Em 1954, George Wein criou um evento que mudou não só a história do jazz, mas da música em geral, moldando todos os formatos de festival modernos, muito antes do Woodstock.
E o lineup deles para 2026 é a resposta mais direta possível para a crítica que circula no mundo inteiro: Herbie Hancock. Kamasi Washington e Chief Adjuah num tributo centenário a Miles Davis e John Coltrane. John Scofield e Dave Holland. Terri Lyne Carrington. The Bad Plus na turnê de despedida.
Isso é o puro jazz em 2026. Jazz de verdade, com profundidade histórica, com artistas que passaram a vida toda dentro da tradição.
E junto com isso: Thundercat, Robert Glasper com Bilal e Ari Lennox, Little Simz, Arlo Parks, Vulfpeck. Artistas que representam o que há de mais contemporâneo no jazz.
E o Flea, com a Honora Band. O baixista do Red Hot que na semana passada eu falei que escondia um trompetista dentro de si por 35 anos. Essa história termina em Newport.
A diferença entre Newport e os outros não é moral. É curatorial.
O Newport esteve presente em cada fase evolutiva do jazz: bop, cool jazz, fusion, free jazz. Qualquer movimento que estava fazendo ondas acabava no palco deles. Isso significa que o festival sempre soube incluir o novo sem abandonar o essencial.
Thundercat tem raízes no jazz. Robert Glasper gravou postumamente com Miles Davis. Little Simz construiu sua carreira sobre samples de jazz britânico dos anos 60. A diferença entre esses artistas e J Balvin num festival de jazz é enorme.
Dá pra passar os três dias do Newport de 2026 ouvindo só os artistas de jazz, com escolhas difíceis a fazer em cada hora, e ainda assim estar completamente imerso.
Herbie Hancock tem 86 anos e ainda performa. Tocou com Miles Davis no início dos anos 60. Inventou o jazz fusion com Head Hunters em 1973. Ganhou 14 Grammys. É um dos poucos músicos vivos que conectam cada fase do jazz moderno por experiência direta.
O tributo que fecha o círculo: Kamasi Washington e Chief Adjuah vão celebrar os 100 anos de Miles Davis e John Coltrane. Os dois nasceram em 1926. Foi em Newport que Miles ressurgiu em 1955, depois de anos difíceis. Duke Ellington declarou em 1956, depois de tocar lá: "I was born at Newport." Paul Gonsalves fez um solo de 27 chorus em "Diminuendo and Crescendo in Blue" que quase provocou um tumulto, e relançou a carreira de Ellington.
O festival tem essa história de ser o lugar onde o jazz se lembra de si mesmo.
Mais informações sobre o festival
Dennis Vianêz • Idealizador Jazz Mansion
Nesse domingo 26.04

Esse domingo tem jazz em São Paulo e os ingressos estão esgotando.
Enquanto o maior festival de jazz do mundo anuncia o lineup de 2026 lá fora, a gente celebra o Dia Internacional do Jazz aqui em Moema.
O 'Jazz Sweet Jazz' acontece no dia 26 de abril, no Bourbon Street, das 12h às 19h. Uma tarde ao ar livre com o grupo carioca Sweet Jazz em dois sets, às 15h e às 17h.
Ingresso R$ 50. Gratuito para membros do Club.
Enquanto isso em Berlim

Na semana passada, uma cerimônia reuniu cerca de 20 pessoas em torno de Erykah Badu para uma experiência sonora imersiva na fronteira da meditação.
Os participantes deitaram no chão com fones de alta fidelidade enquanto Badu, sentada no centro da sala, conduzia uma sessão com fragmentos do próprio arquivo: faixas inéditas, texturas brutas, frequências experimentais e memórias ainda inacabadas.
O evento foi concebido pelo coletivo Kalkul, em Berlim. Não era um show. Não era uma simples sessão de escuta. Nas palavras de quem organizou: era um ritual coletivo, onde a atenção e a presença de cada um criavam um campo de escuta compartilhado.
Também vale ouvir

Duke Ellington, Ellington at Newport (1956):
O Guilherme, membro do Jazz Mansion Club, indicou essa gravação no grupo quando a gente começou a falar sobre Newport essa semana. Duke Ellington declarou "I was born at Newport" depois dessa noite. Paul. Gravado ao vivo em 1956, é um dos álbuns de jazz mais importantes já feitos.
Muddy Waters, Muddy Waters at Newport 1960:
A segunda indicação do Guilherme. Muddy Waters não é jazz. É blues. E estava no Newport em 1960. Naquele mesmo ano, Langston Hughes escreveu uma letra improvisada chamada "Goodbye Newport Blues" e a trouxe a Muddy Waters, que a performou com Otis Spann.
O que fazer em SP

Viva Caymmi • Danilo Caymmi • Sexta, 25/04, 20h • Blue Note SP
Danilo Caymmi, filho de Dorival Caymmi, apresenta um espetáculo que revisita a obra do pai e momentos de sua própria trajetória. No repertório: O Mar, Maracangalha, Morena do Mar, entre outras.
Arrigo Barnabé • Clara Crocodilo na íntegra Casa Natura Musical, Pinheiros • 21h
Arrigo Barnabé apresenta o álbum de 1980 na íntegra, marco da Vanguarda Paulistana, com a formação que inclui Vânia Bastos, Suzana Salles, Tetê Espíndola e Ana Amélia nos vocais.
International Jazz Day • Blue Note SP • 30/04, 20h
O icônico clube de jazz da Paulista celebra o Dia Internacional do Jazz com uma reunião especial de grandes nomes do jazz nacional.
Agenda Jazz Mansion

Toda Terça Um Jazz
Bourbon Street · Moema · 19h30
Ingresso R$ 50 ou gratuito para membros do club
28/04 • Afro Latin Blues – Adriano Grineberg: Um encontro potente entre blues e ritmos afro-latinos, onde o piano de Adriano Grineberg conduz uma experiência pulsante, conectando Brasil, Caribe e o sul dos Estados Unidos em uma sonoridade intensa e contemporânea.
12/05 • Canções & Momentos — Homenagem a Milton Nascimento: Uma noite dedicada ao universo de um dos maiores compositores do Brasil, com Serggio Torres traduzindo a musicalidade única do Clube da Esquina para o jazz.
Caju Jazz Nights
Bar Caju, JW Marriott SP · 20h00
Grátis, 50 lugares, sujeito à lotação
23/04 • Especial Djavan – Jayv + Daniel Cruz: Um encontro que explora a riqueza harmônica e o lirismo de Djavan em versões sofisticadas e cheias de identidade.
30/04 • Boogaloos, Bossas & Calypsos – Marcelo Cotarelli Quarteto: Um tributo a Lee Morgan e à fase em que o jazz se funde com ritmos afro-latinos, criando grooves envolventes e dançantes.
50 lugares por noite.
07/05 • Delírios Femininos — De Nina Simone à Esperanza Spalding: Sophia Amaral percorre o repertório das grandes vozes femininas do jazz, do piano ativista de Nina ao baixo vanguardista de Spalding.
Confirme sua presença gratuitamente
Seja membro do Club para acesso grátis em toda a programação →
