EUA & Canadá: O som que nasceu sem nome
O berço do jazz, Jazz Mansion 10 anos, São Paulo Coffee Festival e Blues no Toda Terça Um Jazz.
Abertura por Dennis Vianêz

Apesar do Vozinha e do Endrick serem a sensação da Copa até o momento, hoje começamos a série da Copa falando sobre o jazz de dois países participantes com boas campanhas mas sem nenhum jogador muito carismático: EUA e Canadá.
Todo mundo já ouviu falar que o jazz é americano. E tecnicamente é verdade. Mas é como dizer que o futebol é inglês.
Pra entender como ele se transformou é fundamental saber de onde veio. New Orleans nos anos 1890 era um lugar no hemisfério ocidental onde africanos, europeus, crioulos e haitianos dividiam os mesmos bailes, os mesmos instrumentos, as mesmas ruas. Esse encontro específico, naquele lugar específico, produziu algo que não tinha nome ainda. A gente chama de jazz.
O que tornou o jazz tão relevante foi ter sido um dos primeiros estilos musicais que quebraram regras a se popularizar pelo mundo, com a ajuda de uma grande invenção da época: o gravador. Foi uma das primeiras vezes na história que um jovem em Londres podia falar pra um amigo: "Cara, olha só o som que estão fazendo lá nos Estados Unidos."
Mas o jazz não nasceu porque os americanos são especialmente criativos.
Nasceu porque New Orleans era um acidente geográfico e histórico. Uma cidade que não deveria ter dado certo e deu.
O historiador Eric Hobsbawm indica que 1900 deve ser considerado o marco de surgimento do jazz, isso pra facilitar as contas. Buddy Bolden foi provavelmente o pioneiro. Barbeiro, cornetista, morador do Uptown de New Orleans, tocava nos clubes e bailes do centro. Não existem gravações dele. A única foto dele conhecida é a que abre essa JAM.
A história é oral. Quando ele tocava, as pessoas paravam na rua.
Dessa rua saiu Louis Armstrong. De Armstrong saiu Duke Ellington. De Ellington saiu Charlie Parker. Do bebop saiu Miles Davis. E daí o mundo inteiro. Cool jazz. Hard bop. Modal jazz. Fusão elétrica. Funk e eletrônico.
Kind of Blue, de 1959, é o álbum de jazz mais vendido de todos os tempos. Foi gravado em duas sessões, sem ensaio prévio, a partir de esboços modais que Miles e Bill Evans trouxeram no dia. Os músicos ouviram a ideia uma vez e tocaram.
E o Canadá não é um detalhe.
Montreal nos anos 20 e 30 era uma cidade mais aberta do que as cidades americanas para músicos negros. Não havia as mesmas leis de segregação.
Os clubes eram integrados antes de qualquer cidade americana. A imigração caribenha trouxe músicos que misturavam calipso, jazz e música clássica europeia numa combinação específica de Montreal.
Oscar Peterson nasceu em Montreal em 1925, filho de imigrantes de Trinidad. Em 1949, Norman Granz o trouxe como surpresa para uma noite de Jazz at the Philharmonic no Carnegie Hall. O público ficou em silêncio por três segundos. Depois explodiu.
É considerado por muitos o maior pianista de jazz do século 20. O mundo trata isso como curiosidade canadense. Não devia. O Canadá investiu em formação musical clássica cedo, e músicos como Peterson tinham base técnica que poucos americanos tinham acesso.
Hoje, Diana Krall, de Vancouver, é uma das artistas de jazz mais vendidas do século 21. E Kamasi Washington, de Los Angeles, leva o jazz a estádios e festivais que o gênero não frequentava há décadas.
A origem segue produzindo.
Gosto de uma entrevista do Quincy Jones que o entrevistador pergunta: "Você não acha que o jazz precisa mudar com o tempo?" e ele responde:
"Qual é cara, jazz é o tempo. Cada disco de jazz que você conhece é como se tivesse sido produzido amanhã, não ontem"
Dennis Vianêz • Idealizador Jazz Mansion
Jazz Mansion 10 anos

Salva na agenda! 22 e 23 de agosto.
Faltam 2 meses! Em breve abriremos a pré-venda exclusivamente para assinantes do Club, com o valor de ingresso mais barato de todos. A assinatura hoje custa R$ 10/mês e você vai poder garantir seus ingressos no precinho!
Aproveite, pois nos próximos dias a assinatura sobe para R$ 30/mês e eu tenho certeza que você vai se arrepender de não ter garantido a sua agora.
O festival está incrível, shows internacionais, destaques da cena independente, vila gastronômica, feira de vinil e uma experiência exclusiva para assinantes no piso superior da mansão.
Também vale ouvir

🇺🇸 So What, Miles Davis (1959):
O melhor ponto de entrada do jazz americano. Onze minutos que passam em três. A nota que não resolve, o silêncio que faz parte da música. Coloque o fone, feche os olhos, ouça uma vez inteiro.
🇨🇦 Night Train, Oscar Peterson (1963):
O trio mais preciso do jazz dos anos 60. Oscar Peterson, Ray Brown no baixo e Ed Thigpen na bateria. Dezessete minutos que parecem simples e não são.
🇨🇦 The Look of Love, Diana Krall (2001):
Vancouver, Canadá. Gravado com a London Symphony Orchestra. A voz mais vendida do jazz do século 21 num dos padrões mais bonitos do repertório. Quem ainda não conhece Diana Krall, começa aqui.
🇺🇸 Truth, Kamasi Washington (2015):
Três horas de álbum. Saxofone que soa como oração, bateria que soa como terremoto, coro que soa como gospel. O jazz americano contemporâneo em doze minutos.
O que fazer em SP

☕ São Paulo Coffee Festival • Sexta a Domingo (26 a 28/06) • Bienal do Ibirapuera
Pavilhão da Bienal · Parque Ibirapuera · Sex 13h às 21h · Sáb e Dom 11h às 20h · Ingresso pago
Três dias dedicados ao universo dos cafés especiais, reunindo torrefações, gastronomia, música ao vivo, workshops e experiências sensoriais. Um programa perfeito para quem gosta de descobrir tendências, sabores e pessoas criativas.
→ Mais informações
🎺 Mark Lambert convida Indiana Nomma & That Swing Dance Cia • Quinta (25/06) • Blue Note São Paulo
Blue Note SP · Av. Paulista, 2073 – 2º andar · 20h · Ingresso pago
Uma noite dedicada ao swing, combinando jazz ao vivo e dança em um espetáculo que transporta o público para a atmosfera dos clubes americanos das décadas de 1930 e 1940.
→ Mais informações
🎹 Marta Karassawa Quintet • Sábado (26/06) • JazzB Clube de Jazz
JazzB · R. General Jardim, 43 – República · 21h · Ingresso pago
Pianista formada no Berklee College of Music lidera um dos quintetos mais respeitados da cena paulistana, com Teco Cardoso no sax e flauta, Sidmar Vieira no trompete e Frank Herzberg no contrabaixo. Repertório autoral que mistura swing, bossa nova, baião e blues funkeado. O show do álbum "Tempo Bom" esgotou no Blue Note e no JazzB. Agora é de novo.
→ Mais informações
Agenda Jazz Mansion

Toda Terça Um Jazz
Bourbon Street · Moema · 19h30
Ingresso R$ 38 ou gratuito para membros do club
23/06 • Clássicos do Blues - Blues In Vain: A noite dos puristas e dos curiosos. A Blues in Vain nasceu em 2017 com uma missão clara: voltar às raízes do blues, do Delta do Mississippi pra cá, do figurino ao som. Tocam com violão ressonador, gaita, washboard e percussão, os instrumentos que contam a história do gênero, misturados com guitarra, teclado, baixo e bateria. Blues com irreverência e muito improviso, do jeito solto que ele nasceu pra ser.
30/06 • Travessia - Luci Saluzzi: Você talvez conheça a voz dela sem saber o rosto. Luci é atriz, cantora e dubladora: foi a Asha de "Wish", a Sarabi de "Mufasa" e a Riri Williams de "Pantera Negra: Wakanda pra Sempre". Nos palcos, fez teatro musical de peso, do "Dom Casmurro", onde viveu a Capitu, ao "Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte". Agora ela está num momento novo, dando voz às próprias canções, sobre afeto, memória e pertencimento. Intensa, sensível, de pele. Uma boa descoberta pra fechar o mês.
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