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A harpa de Dorothy Ashby atravessou o jazz, Stevie Wonder e o hip-hop

Brandee Younger durante apresentação no Harlem Arts Festival.
Brandee Younger no Harlem Arts Festival, em 30 de junho de 2013. A harpista é uma das intérpretes que ajudam a apresentar o legado de Dorothy Ashby; a imagem retrata Younger.
Nick Amoscato / Wikimedia Commons · CC BY 2.0 · Origem.

É possível ter ouvido Dorothy Ashby antes de saber seu nome. A harpa de “If It’s Magic”, de Stevie Wonder, apresenta um caminho. Os discos que mais tarde forneceram material para produtores de hip-hop oferecem outro. Entre esses encontros está uma artista que não tratou seu instrumento como decoração.

Em entrevista à WBGO, publicada em janeiro de 2024, a harpista Brandee Younger contou que conheceu aquele som em gravações de Wonder e em faixas com samples, antes de compreender a dimensão da trajetória de Ashby. A conversa com Younger mostra como uma presença musical pode circular mais depressa que o reconhecimento de quem a criou.

Antes da harpa, o piano e Detroit

Uma entrevista de 1982 preservada pela American Harp Society permite encontrar Ashby falando sobre sua própria formação. Seu pai era guitarrista de jazz e lhe ensinou acordes no piano. Ela estudou na Cass Technical High School, em Detroit, e trabalhou como pianista em diferentes situações antes de formar conjuntos com harpa, baixo e bateria. Entrevista de Carrol McLaughlin.

A passagem de um instrumento a outro ajuda a compreender o projeto. Não bastava trocar o timbre de uma melodia. A harpa precisava participar da harmonia, sustentar frases e dividir o espaço com uma seção rítmica. Ouvi-la a partir dessa tarefa muda a atenção: as cordas podem ocupar o centro de uma conversa musical.

Ashby relatou que o encontro com Frank Wess, músico da banda de Count Basie, levou à gravação de seu primeiro álbum em Nova York, em 1957. A mesma entrevista registra sua mudança para Los Angeles em 1973 e o trabalho de estúdio com nomes como Stevie Wonder e Earth, Wind & Fire. A circulação por esses ambientes fazia parte de uma carreira profissional, não de uma curiosidade passageira.

Um instrumento com ataque, frase e decisão

Younger chama atenção para escolhas que distinguem Ashby: a relação com acordes aprendidos no piano e na guitarra, o modo de tocar próximo à caixa de ressonância e a preocupação com notas que continuam soando quando a harmonia muda. É uma leitura feita por outra instrumentista, com experiência prática no problema. Análise de Younger à WBGO.

Brandee Younger tocando as cordas da harpa no palco.
Brandee Younger tocando harpa no Detroit International Jazz Festival, em 31 de agosto de 2008. A fotografia ajuda a observar a execução do instrumento; não retrata Dorothy Ashby.
Marek Lazarski / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0 · Origem.

Esses detalhes são um antídoto para o clichê de uma harpa necessariamente suave ou celestial. O instrumento tem ressonância, mas também ataque. A música depende de como a intérprete administra as duas coisas. Para quem chega agora, vale procurar a linha que as cordas desenham, em vez de prestar atenção apenas ao brilho do som.

As reedições devolvem uma discografia

O box With Strings Attached: 1957–1965, lançado pela New Land em 2023, reuniu seis LPs e trouxe texto de apresentação de Younger. A seleção favorece uma visão de continuidade: há vários discos, escolhas e momentos por trás da imagem de uma pioneira. Edição e repertório.

Outro ponto de entrada é Afro-Harping, de 1968, disponível no catálogo digital. “Soul Vibrations”, “Action Line” e “Little Sunflower” permitem começar por faixas diferentes e investigar como a harpa se relaciona com cada arranjo.

Depois dessa escuta, retornar a “If It’s Magic” ganha um sentido novo. A participação deixa de ser um som sem nome e passa a integrar uma trajetória. E acompanhar Brandee Younger permite reconhecer a conversa entre gerações: a história da harpa no jazz continua sendo escrita por músicos que transformam possibilidades herdadas em escolhas próprias.

Brandee Younger: Tiny Desk Concert
Concerto de Brandee Younger para a série Tiny Desk, da NPR, publicado em 2023 e indicado no site oficial da artista. É uma interpretação contemporânea, não um registro de Dorothy Ashby.
NPR Music · Assistir no YouTube · Fonte da indicação

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